Histórias

Registro histórico, memórias e legado familiar
Parte de Fábio Soares Ribeiro. Conhece outra história? Envie pelo formulário.

Histórias da vida de Fábio, algumas lembradas pela família e outras contadas por amigos que ouviram dele mesmo, muitas vezes.

Aprendendo a dirigir sozinho

Não me lembro exatamente quem emprestou o carro, mas era um Monza. O Fábio já sabia pilotar moto, mas nunca tinha dirigido um carro. Então, pela manhã, ele pegou um Monza emprestado com o objetivo de aprender a dirigir. Sozinho, ele explorou o bairro, as ruas e a cidade, tentando e aprendendo, pegando o jeito aos poucos. Com persistência, ele conseguiu aprender a dirigir no final do dia. E ainda por cima, trouxe o carro inteiro de volta.

Viagem para Antônio João na infância

Essa história também precisa de fontes mais confiáveis, porém vai com o que lembro no momento. Fábio gostava de contar a história de quando viajaram com a molecada para Mato Grosso do Sul, ele também era molecada nesse caso. Eram 400 km de estrada de terra, e o percurso era feito com um fusca levando todo mundo, imagina se estava apertado né? Imagina se alguém estava com cinto de segurança ali, né? Pura emoção. Enfim, naquela época não tinha ar condicionado nos carros, e o calor estava matando todo mundo. Eis que Felisberto e o pai do Tino resolveram fazer uma parada na estrada, era um sonho se realizando, pediram uma coca-cola gelada para todos os pequenos, um dos pequenos prazeres da vida. Porém, quando o refrigerante chegou na mesa, Felis e o pai do Tino começaram a brigar, e como resultado, mandaram todo mundo pro carro, porque iriam partir naquele instante. O que mais chateou o Fábio nisso tudo foi ver várias cocas de vidro geladas e intactas na mesa, enquanto voltavam para o carro. Outros tempos.

Viagem para Antônio João com o Mario dorminhoco

Fábio sempre foi muito sarrista, o que fazia com que enxergasse situações engraçadas, nas coisas mais simples da vida. Mario é seu compadre (padrinho da Vitória) e amigo de longa data. Se conheceram no Mato Grosso do Sul, e eventualmente deu certo do Mario se mudar para São Paulo. Em uma das viagens de São Paulo para Mato Grosso, aparentemente juntou a fome com a vontade de comer. Se deixasse, o Fábio dirigiria o caminho todo (cerca de 15h ou 1.200 km), e por outro lado, se deixasse, o Mario dormiria o caminho todo. Dito e feito, em determinado momento da viagem, Fábio percebeu que o sono do Mario, apesar de conhecido, estava muito exagerado. Ele então decide testar realmente se o sono do Mario era pesado, e estacionou o carro em algum acostamento, sacou sua arma e deu alguns tiros pro alto. Imagina o barulho? E para sua incredulidade, Mario continuou dormindo como um bebê, apesar do barulho de tiros sendo disparados do lado do carro.

A noite do sambinha

Uma das histórias mais marcantes que vivi com o Fábio foi quando ele foi convidado para um sambinha de um grupo de dança do qual participava.

Do nada, ele virou para mim e disse: “Gil, paga aqui que a gente vai.”

Eu ainda perguntei: “Tem certeza?”

E ele, decidido: “Vamos.”

Ele entrou em contato com a organizadora, que era amiga dele, e ficou tudo certo. Eu só pensava: “Meu Deus do céu.” Ele não fazia tanto tempo que tinha recebido alta de uma das internações, mas estava determinado a sair e viver aquele momento.

O convite chegou, mas ele não me mostrou direito. Fui olhar pelo celular dele e acabei entendendo errado o horário. Só lembrava de um número e fomos no horário que achei que fosse.

A Ivana, com toda paciência do mundo, levou a gente até lá.

Quando chegamos, estava tudo vazio. Absolutamente tudo. Não tinha ninguém, não tinha música, não tinha palco montado, não tinha mesas… nada.

Ficamos olhando um para a cara do outro meio perdidos, até aparecer uma criança perguntando o que estávamos fazendo ali. Expliquei que tínhamos ido para a festa e o menino, olhando para mim e para o Fábio na cadeira de rodas, respondeu: “Tá bom, vou chamar meu pai.”

Depois veio o responsável e explicou que a festa ainda nem tinha começado. Descobrimos então nosso grande feito: a festa começava às 22h, e a gente tinha chegado às 19h.

Ou seja: chegamos cedo num nível em que faltava pouco chamarem a gente pra ajudar a montar o evento.

No fim, ficamos lá esperando por um bom tempo. Apesar de tudo, foi um momento surpreendentemente bom. Estávamos sentados de frente para o mar, sentindo a brisa, ouvindo só o barulho das ondas e conversando.

Quando as pessoas começaram a chegar, ele ficou mais tranquilo. Depois chegou uma amiga dele e resolvemos olhar o cardápio. Recebemos pulseirinhas e achamos que já incluíam comida e bebida. Pura ilusão. Era tudo por fora — e tudo absurdamente caro.

Lemos o cardápio e concluímos, em silêncio e maturidade financeira, que o melhor era ficar só na água.

Então foi isso: uma água para ele, uma água para mim e seguimos vivendo a experiência gourmet mais humilde possível.

Quando a música começou e o pessoal foi para a pista, levei ele até perto para assistir. Depois, uma amiga dele apareceu e dançou com ele ali mesmo, na cadeira.

E pronto: valeu tudo.

Ele amou a noite. Disse que tinha sido uma das melhores desde muito tempo. Dava para ver a felicidade dele, o brilho no olhar, a empolgação genuína por estar vivendo aquilo de novo depois de tanto tempo sem sair.

Na volta, ainda pegamos um Uber super legal, e ele foi conversando o caminho inteiro, se sentindo o próprio astro da noite.

O melhor foi chegar em casa e ver a euforia continuar. Ele ficou relembrando tudo, comentando cada detalhe. No outro dia, amanhecemos conversando e fofocando sobre tudo o que tinha acontecido.

E como ele gostava de uma fofoca…

Lembro claramente do sorriso dele naquela noite. Mais do que sair para um evento, aquilo foi ele se permitindo viver de novo. E poder estar ali acompanhando isso foi muito especial para mim.

Contada por Gilberto Henrique, amigo de Fábio.

O dia em que o Fábio achou que seria seu último

Essa era uma das histórias que o Fábio mais gostava de contar. E, toda vez que contava, parecia que a gente estava vivendo tudo junto com ele.

Na época, ele e a Ivana tinham acabado de abrir um restaurante. Era justamente o dia da inauguração, e os dois estavam na correria, descarregando o carro e levando as coisas para dentro.

Foi então que, de repente, um homem armado apareceu.

Ele obrigou os dois a entrarem no carro. A Ivana foi forçada a dirigir, enquanto o Fábio ficou no banco de trás, ao lado do assaltante.

A viagem foi tensa do começo ao fim.

O homem mandava acelerar. Logo depois, dizia para diminuir a velocidade. Em seguida, voltava a mandar acelerar. Parecia não saber nem o que queria.

A Ivana contou que, durante todo o percurso, só fazia uma coisa: rezava em silêncio. No coração dela, a sensação era de que não sairiam dali com vida.

Até que, em um momento de tensão, depois de ouvir mais uma ordem para acelerar e outra para ir devagar, ela perdeu a paciência e respondeu algo como:

— Meu filho, decida o que você quer!

O Fábio dizia que quase congelou naquela hora. O homem apontou a arma para a cabeça dela, e ele só conseguia pedir:

— Ivana, pelo amor de Deus… fica quieta e dirige!

Depois de algum tempo, o assaltante mandou entrar em uma rua bem isolada e ordenou que os dois descessem do carro.

O Fábio sempre dizia que, naquele instante, teve certeza de que aquele seria o último momento da vida dele.

Mas Deus escreveu um final diferente.

O criminoso entrou no carro e foi embora, deixando os dois ali. A Ivana não teve seus pertences levados. O Fábio, porém, perdeu tudo o que estava com ele, inclusive o carro, que havia sido comprado havia pouco tempo.

Anos depois, essa continuava sendo uma das histórias que ele mais gostava de relembrar. Contava cada detalhe com aquele jeito único, misturando tensão, expressões engraçadas e gratidão por ter recebido uma segunda chance.

Hoje, essa lembrança faz parte das muitas histórias que o Fábio deixou para quem teve o privilégio de conhecê-lo. Cada uma delas mantém viva a sua voz, seu jeito de contar e a marca que deixou na vida de tantas pessoas.

Contada por Gilberto Henrique, amigo de Fábio.

O passeio que virou uma sequência de desastres

Essa é uma daquelas histórias das quais eu não lembro todos os detalhes. O tempo apaga algumas partes, mas as melhores cenas ficaram gravadas.

O Fábio contava que, certa vez, foi passear com a Vitória, o Fabinho e a Fabíola. Era um lugar de lazer, com piscina, brinquedos e outras atrações. O que era para ser um dia tranquilo acabou virando uma coleção de acontecimentos que ele fazia questão de relembrar.

Entre todas as histórias desse passeio, havia uma que ele contava quase sempre.

Ele resolveu brincar com a Vitória em um balanço. No começo era só diversão: ia para frente, voltava, ia mais alto, voltava de novo…

Até que aconteceu o inevitável.

Por algum motivo que hoje já não lembro direito, os dois acabaram caindo.

Na hora, o instinto de pai falou mais alto. O Fábio conseguiu amortecer a queda para proteger a Vitória, que acabou caindo sobre ele.

O resultado?

Todo mundo correu para saber se a Vitória estava bem.

E o Fábio, estendido no chão, indignado, dizia que a maior revolta dele não tinha sido nem a queda.

Era o fato de ninguém perguntar:

— “E tu, Fábio, tá vivo?”

Ele contava essa parte dando risada, como se ainda esperasse, anos depois, que alguém finalmente tivesse pena dele.

Como se a aventura ainda não bastasse, ele também lembrava de outro momento daquele mesmo passeio.

A Vitória queria porque queria que ele descesse com ela em um tobogã enorme. O problema é que quem conhecia o Fábio sabia que a coragem dele, naquele momento, estava bem abaixo da altura do brinquedo.

Mas pai é pai.

Ele respirou fundo, fez pose de quem estava tranquilo e foi.

Por dentro, segundo ele mesmo, era só oração.

Quando finalmente desceu, dizia que foi com mais medo do que coragem, rezando para chegar inteiro lá embaixo. No fim, deu tudo certo, mas ele nunca escondia que enfrentou aquele tobogã muito mais pela filha do que por vontade própria.

Essa era uma das marcas do Fábio: até os dias mais atrapalhados viravam histórias inesquecíveis.

Contada por Gilberto Henrique, amigo de Fábio.

O dia em que a Vitória “sumiu”

Essa era mais uma daquelas histórias que o Fábio contava e que começavam de um jeito comum, mas terminavam deixando todo mundo de boca aberta.

Pelo que me lembro, a Vitória saiu de casa normalmente para ir à escola. Quem foi buscá-la foi o motorista da van escolar, como acontecia de costume.

O problema é que, naquele dia, alguma coisa estava errada.

Segundo o que o Fábio contava, o motorista estava com problemas relacionados ao veículo ou à documentação e, quando percebeu a aproximação da polícia, resolveu fugir.

E a Vitória estava dentro da van.

Enquanto isso, na escola, a presença dela nunca foi registrada.

Foi então que ligaram para o Fábio perguntando onde a Vitória estava, porque ela simplesmente não havia chegado.

Imagino o desespero daquele momento.

A menina tinha saído de casa para ir à escola, mas ninguém sabia onde ela estava. O que a família ainda não sabia era que ela permanecia dentro da van enquanto o motorista tentava escapar da polícia.

Graças a Deus, tudo terminou bem, e a Vitória voltou em segurança para casa. Mas o susto foi enorme.

O mais engraçado dessa história aconteceu muitos anos depois.

Depois que o Fábio me contou tudo isso, nós resolvemos ligar para a própria Vitória para saber se ela lembrava de alguma coisa daquele dia.

Ela ouviu a história toda e respondeu, com a maior naturalidade do mundo:

— Eu não lembro de nada.

Nem um pedacinho.

Eu e o Fábio caímos na risada. Ele começou a contar os detalhes de novo, e ela seguia surpresa, como se estivesse ouvindo aquilo pela primeira vez.

No fim, a nossa conclusão foi a mais “científica” possível: brincamos que o episódio tinha sido tão traumático que o cérebro dela simplesmente apagou tudo.

Claro que era só uma brincadeira nossa. Mas a cena foi engraçada: o Fábio relembrando um dos maiores sustos da vida dele, enquanto a protagonista da história não conseguia recordar absolutamente nada.

Contada por Gilberto Henrique, amigo de Fábio.